terça-feira, 29 de maio de 2012

The World Science Festival

The mind after midnight: Where you go when you fall sleep?



Amanhã começa mais um "World Science Festival" promovido pela ONG Science Festival Foundation que trabalha em prol da divulgação da ciência ao público comum. Não acompanhei o evento no ano passado, mas é possível navegar pelo site e encontrar (para o delírio nerd) muitos vídeos com as discussões e entrevistas realizadas nos festivais anteriores.

Acima está o vídeo de um bate-papo entre o entrevistador Carl Zimmer (escritor de ciência) e três cientistas, Matthew Wilson, Niels Rattenborg, Carlos Schenk que ganham a vida estudando o sono.

Enjoy.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Todos os animais dormem?



*Versão para crianças:
       
Outro dia meu sobrinho de 7 anos perguntou, “tio, os animais dormem?”. Prontamente respondi: “De certa maneira, quase todos os animais dormem sim, até as moscas!”. Como toda criança desta idade, meu sobrinho não se contentou com a resposta (incompleta) e a parte incômoda foi eu começar a responder com “de certa maneira” e logo em seguida soltar um “quase todos”. Assim ele emendou logo na sequência, “Como assim tio, de certa maneira e quase todos? Dormir não é igual para todos os animais? Eu já vi o cachorro da minha amiga dormindo e ele também fica de olhos fechados, às vezes até treme um pouco as patas quando está sonhando. E existem animais que nunca dormem?" A réplica dele pedia uma resposta mais elaborada. Tentei convencê-lo dessa forma: “até onde se sabe, existem animais que dormem, e animais que não dormem também. O problema é que nem todos dormem da mesma maneira, aí fica um pouco mais difícil dizer quem dorme e quem não dorme. Veja, os cachorros, gatos, coelhos, e até cavalos dormem de um jeito bastante parecido com a maneira que nós dormimos. Quer dizer, eles fecham os olhos, ficam parados em algum lugar, e em algum momento do sono precisam ficar deitados, ou agachados, não respondem tão facilmente a estímulos (som, cheiro, tato) e se ficarem sem dormir por uma noite, tendem a precisar de mais sono no dia seguinte. Já outros animais, como os golfinhos tem um sono bastante diferente, eles conseguem dormir enquanto nadam! E o mais incrível é que apenas metade do cérebro dos golfinhos dorme a cada momento de sono, assim eles não precisam ficar parados! Além dos golfinhos, outros animais tem um tipo diferente de sono. Alguns insetos como a mosca da fruta (aquela pequena que quase sempre aparece na fruteira) também dormem, mas nelas, assim como baratas e alguns tipos de abelhas o sono é um pouco diferente, o que se sabe é que esses animais ficam parados e precisam desse momento de repouso todos os dias, e se ficarem sem isso por um dia irão aumentar a duração no dia seguinte. Já os peixes existem alguns que dormem como o zebra-fish e a tilápia. Sobre os anfíbios não se sabe muito, apenas algumas espécies foram estudadas e não há uma decisão final se eles dormem ou não. Já os répteis como as tartarugas parecem dormir sim. Os pássaros também dormem, mas alguns pássaros migratórios conseguem ficar bastante tempo sem dormir durante o período de migração." Até hoje não tenho certeza se minha resposta foi satisfatória ou não, mas tentei passar alguns conceitos que, dado ao momento específico, eram adequados à resposta.

Todos os animais dormem? A minha resposta curta seria: "provavelmente sim, mas não diria que absolutamente todos os animais dormem, e nem que o sono é igual para todos". 

domingo, 22 de abril de 2012

O que um Biólogo deve saber sobre o sono?

Pessoal,

Abaixo o Prezi que preparei para uma aula com o pessoal da biologia.
Críticas e comentários sempre são bem vindos.


sábado, 10 de março de 2012

Emoção e Memória: Monstros ajudando a consolidar o aprendizado.

"11 de setembro de 2001, por volta das 12h30min eu caminhava pela rua 13 de Maio, no centro de Curitiba, quando vi em uma televisão de um bar a imagem de uma explosão seguido pelo desabamento de uma torre. Assustado parei para assistir e tentar entender o que acontecia. Aquela era a reprise de um ataque que havia acontecido há poucos minutos no centro de Manhattam, milhares de quilômetros  de onde eu morava".

Agora pergunto:
Você lembra onde você estava, ou o que estava fazendo quando aconteceu o ataque às Torres Gêmeas? Ou quando o Brasil venceu a Copa do Mundo de futebol 2002? Ou ainda quando o Internacional foi Campeão Mundial de Clubes?
Agora você lembra onde estava, ou o que estava fazendo no dia 1º de fevereiro de 2011? Ou no dia 11 de novembro de 2011 (11/11/11)? Ou mesmo no dia que César Ciello conquistou a medala de ouro para 50m e 100m nado livre no mundial de natação de 2009?

ResearchBlogging.org
Acredito que muitas pessoas irão lembrar de onde estavam ou do que faziam em pelo menos uma das três perguntas do primeiro parágrafo. Agora a chance das pessoas lembrarem do que faziam ou de onde estavam para qualquer uma das três perguntas do segundo parágrafo é menor. Mas... Qual a diferença entre as perguntas? Por que recordamos melhor de algumas datas e de outras não? 

A resposta se resume em uma palavra: emoção. Já há algum tempo que neurocientistas e psicólogos sabem que eventos carregados emocionalmente são lembrados com mais facilidade. É como se a emoção criasse uma marca em nossas memórias fazendo com que perdurem mais. Isso pode ser tanto para memórias agradáveis (emocionalmente positivas) quanto para memórias desagradáveis (emocionalmente negativas). Serve também para o contexto, eventos com contexto emocional carregados positiva ou negativamente serão recordados com mais facilidade, isso justifica o fato de recordamos do que fazíamos e onde estávamos, por exemplo, no 11 de setembro. 

Mas qual a novidade disso? Por que essa "lenga-lenga" toda? Isso tudo é para explicar um trabalho publicado em 2010, mas que li apenas ontem. O artigo intitulado: Offline consolidation of procedural skill learning is enhanced by negative emotional content. de autoria de um grupo de pesquisadores britânicos, mostra que o conteúdo emocional, especialmente o negativo, pode influenciar a consolidação de memórias procedurais também. 
Também porque como vimos acima, já se sabia que o contexto emocional influencia a consolidação de memórias declarativas. O que não se sabia é que memórias não-declarativas (entre elas as procedurais) também podem ser influenciadas pelo contexto emocional.
Para concluir isso os pesquisadores realizaram uma modificação bastante inteligente em um teste bastante conhecido. O teste é o "mirror-tracing task" ou em português "tarefa do traçado espelhado" (tradução minha). Resumidamente, a tarefa consiste em desenhar o traçado de uma estrela sendo que para isso, o sujeito irá observar os movimentos de sua mão através de um espelho. Sendo assim, movimentos para a direita representam traçados para a esquerda. A figura 1 apresenta um esquema do teste e também as curvas de aprendizagem para três dias consecutivos (clique aqui para descobrir a origem da figura).

Figura 1. Tarefa do traçado espelhado: Na parte superior o esquema da tarefa na qual o sujeito desenha o traçado de uma estrela acompanhando os movimentos de sua mão apenas pelo espelho. Na parte inferior as curvas de aprendizado demonstram a melhora no desempenho a cada tentativa.

A modificação realizada pelo grupo de pesquisadores britânicos foi a troca da imagem. Para avaliar o contexto emocional eles substituíram a imagem da estrela por imagens emocionalmente positivas, negativas e neutras (conforme a figura 2) e aí ensinaram e treinaram os sujeitos no desenho dos traçados das figuras. Assim eles tiveram três grupos, um para cada conteúdo emocional. Em seguida, eles dividiram os sujeitos em grupos de acordo com três intervalos diferentes de retenção, um contendo 12h de vigília, outro de 12h contendo pelo menos 6h de sono e outro de 24h também contendo pelo menos 6h de sono
Com um total de 9 grupos o que eles notaram foi que os sujeitos que treinaram o traçado espelhado das figuras dos monstros tiveram melhor desempenho após qualquer intervalo de retenção, mais interessante ainda, foi notar que aqueles que os sujeitos do grupo com contexto emocional negativo e intervalo seguido por sono tiveram o melhor desempenho geral no teste. Ou seja, o sono, juntamente com o contexto emocional negativo, ajudou os sujeitos a consolidar uma memória não-declarativa.

Figura 2. Exemplos dos traçados utilizados para a tarefa do traçado espelhado. Os monstros "venceram".
A conclusão final do trabalho é que o contexto emocional em que determinada habilidade é aprendido pode impactar na consolidação dessa memória. Daí a brincadeira do título!

Apesar do trabalho apresentar resultados e conclusões bastante interessantes cabe aqui uma crítica. Os pesquisadores não utilizaram nenhum tipo de ferramenta para avaliar se os sujeitos realmente dormiram. Sendo assim um viés experimental perigoso.

Fica a dica para os próximos estudos.

Javadi, A., Walsh, V., & Lewis, P. (2010). Offline consolidation of procedural skill learning is enhanced by negative emotional content Experimental Brain Research, 208 (4), 507-517 DOI: 10.1007/s00221-010-2497-7

Update 12/03/2012
Preparei um Prezi para apresentar no grupo de discussão do Laboratório de Cronobiologia Humana - UFPR.
Você pode conferir a apresentação aqui:


sábado, 25 de fevereiro de 2012

Só mais dez minutos!

ResearchBlogging.org
Começo de ano letivo é sempre a mesma história, adolescentes sonolentos e pais estressados fazendo de tudo para tirar os filhos da cama. O título deste texto pode ser a frase mais dita pelos adolescentes nas primeiras semanas de aula. Por que? Muito provavelmente por causa do "Atraso de Fase de sono da adolescência"
O que é esse atraso de fase de sono? E qual sua relação com a adolescência? 
Primeiro vamos entender o atraso de fase de sono. Esse termo é uma descrição pomposa para dizer que há um atraso no ritmo sono/vigília. Ou seja, há um atraso nos horários de início de sono e de despertar. Existe até alguns casos mais extremos no qual pode se classificar como a síndrome da fase atrasada de sono mas esse não é o caso dos adolescentes!
Segundo, a relação do atraso de fase de sono com adolescência é que justamente durante essa fase da vida as pessoas naturalmente tendem a atrasar seus horários, daí o nome atraso de fase de sono da adolescência. Então que venham as perguntas inevitáveis: Por que durante a adolescência? Por que atrasar e não adiantar? Isso termina com o final da adolescência?
Os parágrafos a seguir tentarão responder todas essas perguntas, mas antes, recomendo a leitura do texto sobre os processos de regulação do sono, o processo "C" e o processo "S".



Porque durante a adolescência? E por que atrasar e não adiantar?
Esse atraso de fase parece ser relacionado ao desenvolvimento puberal. Quando cientistas compararam o horário de dormir com os estágios de amadurecimento propostos por Tanner (1962) pesquisadores observaram que juntamente com o aumento do desenvolvimento puberal ocorre um atraso nos horários de dormir e acordar. Mas o que explica essa mudança de comportamento? 
Uma possível explicação é que adolescentes mais maduros seriam menos sensíveis a pressão homeostática do sono (processo "S" de regulação do sono), o que atrasaria o início do sono. Interessante notar que apesar de possuírem uma menor pressão de sono, a dissipação do processo "S" não difere. Trocando em miúdos, os adolescentes demoram mais para iniciarem o sono, mas continuam precisando de 8:30-9:30h de sono para dissipar a pressão homeostática. Essa hipótese é baseada principalmente nos trabalhos da psicóloga Mary Carskadon e colaboradores.
Outra possibilidade é que adolescentes tenham o período endógeno circadiano com maior duração, cerca de 24.27h. Isso implica em dizer que para os adolescentes o dia teria um pouco mais que 24h de duração, daí a dificuldade em se ajustar. Essa seria a participação do processo "C" de regulação do sono no atraso de fase de sono da adolescência.
Esses dois são os principais fatores biológicos associados ao atraso e explicam sua associação com a adolescência assim como a razão pela qual os indivíduos atrasam e não adiantam seus horários.
No entanto, é sabido que a adolescência não é apenas uma etapa de mudanças biológicas. Mudanças comportamentais e sociais também fazem parte do desenvolvimento e possuem papel fundamental no atraso de fase de sono da adolescência. Diversos estudos indicam a participação dos fatores sócio-culturais e comportamentais para uma redução de até 120 minutos na duração de sono durante os dias letivos. Pode-se listar aqui hábitos como o uso de eletrônicos (computador, vídeo-game, telefone celular) na cama, também deve-se considerar o horário do início das aulas (7h30min na maioria das cidades brasileiras) e a alta carga de atividades acadêmicas (trabalhos, tarefas de casa e provas).
Em síntese, o atraso de fase de sono da adolescência é consequência de mudanças biológicas relacionadas ao desenvolvimento (aquelas associadas ao processo "S" e ao processo "C" de regulação do sono) e de mudanças comportamentais que são influenciadas por fatores sociais.

Isso termina com o final da adolescência?
Aparentemente sim, é o que indica um estudo liderado pelo pesquisador alemão Till Roenneberg que sugere o final do atraso de fase de sono como um marcador para o final da adolescência. Segundo o estudo, que usou dados de cerca de 25 mil pessoas,  há uma variação ontogenética nos ritmos biológicos, o que quer dizer que não mudamos apenas os horários de dormir e acordar, mas mudamos também outros ritmos ao longo da vida, havendo um atraso acentuado dos ritmos a partir dos 10 anos de idade até os 20 anos, momento em que haveria uma diminuição nesse atraso e consequente adiantamento dos ritmos. Para avaliar isso o estudo usou um questionário de Munich para avaliação do cronotipo. Você pode acessá-lo gratuitamente aqui e ainda fazer parte dos estudos do grupo do Till (já fiquei íntimo!)

E quais são as consequências do atraso de fase de sono da adolescência?
Evidentemente que a primeira consequência percebida é a diminuição das horas de sono dormidas (débito de sono) e em seguida o aumento da sonolência diurna. Com possíveis reflexos no desempenho escolar, saúde, e acidentes nos adolescentes.

Há alguma solução para isso?
Algumas soluções já estão sendo testadas, entre elas o uso de programas educacionais para ajudar os adolescentes a melhorar os hábitos de sono e consequentemente seus padrões de sono e diminuir a sonolência diurna. Nosso grupo de pesquisa publicou recentemente um trabalho no qual mostra que simples intervenções educacionais (com palestras e atividades interativas, porém de curta duração) não apresentam eficácia na mudança de comportamento. O trabalho pode ser acessado aqui.
Dentre outras alternativas está a mudança dos horários escolares, na verdade o atraso no horário de início das aulas. Alguns estudos indicam que atrasar o horário de início das aulas pode significar o aumento da duração de sono dos adolescentes, diminuição da sonolência, melhora no humor e até diminuição no número de atraso às aulas.

Efetivamente, atrasar o início das aulas parece a melhor solução, porém, tal medida não é tão simples de ser tomada visto que há uma série de fatores logísticos a serem avaliados, entre eles o transporte dos alunos até a escola.

Enquanto as mudanças não ocorrem, seguiremos ouvindo a famosa frase: "Só mais dez minutos!"

Referências:
1- Tarokh L, Raffray T, Van Reen E, & Carskadon MA (2010). Physiology of normal sleep in adolescents. Adolescent medicine: state of the art reviews, 21 (3) PMID: 21302851
2- Hagenauer, M., Perryman, J., Lee, T., & Carskadon, M. (2009). Adolescent Changes in the Homeostatic and Circadian Regulation of Sleep Developmental Neuroscience, 31 (4), 276-284 DOI: 10.1159/000216538
3- Giannotti, F., & Cortesi, F. (2009). Family and Cultural Influences on Sleep Development Child and Adolescent Psychiatric Clinics of North America, 18 (4), 849-861 DOI: 10.1016/j.chc.2009.04.003
4- Roenneberg, T., Kuehnle, T., Pramstaller, P., Ricken, J., Havel, M., Guth, A., & Merrow, M. (2004). A marker for the end of adolescence Current Biology, 14 (24) DOI: 10.1016/j.cub.2004.11.039

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Os processos "C" e "S" de regulação do Sono

Para preparar para a leitura do próximo texto "Só mais dez minutos" decidi fazer uma descrição sobre o modelo que usamos para explicar como o sono é regulado. A ideia é que as pessoas encontrem aqui informações sobre o que é chamado de Processo Circadiano (Processo C) e Processo Homeostático (Processo S) de regulação do sono. O modelo que explica esses dois processos foi proposto por Borbély em 1982 com o trabalho intitulado "A two process model of sleep regulation" O modelo de dois processos para a regulação do sono. Veja a figura abaixo para um esquema didático do modelo.
Figura 1. Modelo de dois processos de regulação do sono. Em azul claro representado 24h de um dia. Em cinza uma curva representando o Processo "S" de regulação do sono se acumulando ao longo do dia e sendo dissipado durante o sono. Os clip-art de sol e lua formam a curva que representa o processo "C" de regulação do sono. Em Vermelho outra curva representando a propensão ao sono consequente da ação dos dois processos "C" e "S". As duas setas violetas indicam os dois principais portões do sono. 
Ainda está complicado? Então faremos como o Jack, vamos por partes!
Para entender como funciona essa regulação precisamos entender o que a palavra "Circadiano" significa. A palavra tem origem no latim "Circa - cerca de" e "diem - dia", sendo assim "Circadiano" significa cerca de um dia. Cronobiologicamente falando, usamos o termo para representar ritmos biológicos com período próximo a 24 horas.
Sendo assim, o processo Circadiano está relacionado com a regulagem do momento que devemos dormir. Ou seja, é ele que indicaria para o corpo quando está claro, ou escuro. Como somos animais diurnos temos a tendência de dormir a noite. Então a propensão ao sono, relacionada ao processo circadiano fica aumentada durante a noite.
Agora podemos olhar com atenção o diagrama a seguir que mostra apenas a participação do processo "C" na regulação do sono.
Figura 2. Processo Circadiano da Regulação do Sono. Os clip-art sol e lua indicam a variação diária do ciclo claro/escuro.  Estes formam uma curva que também indica a propensão ao sono ao longo de 24h se considerado apenas a participação do processo Circadiano.
Para simplificar as coisas mais do que já simplifiquei podemos pensar no processo Circadiano como a regulação feita pelo ciclo claro/escuro. Quando está claro nossa propensão ao sono diminui e tendemos a ficar mais alertas, o inverso ocorre quando está escuro.
E o processo Homeostático, também chamado de Processo "S"? Aqui também discutiremos primeiro o que significa a palavra "homeostático". O termo vem de "homeostasia" que na fisiologia clássica é definida como "a manutenção das condições internas dos organismos constante". Mas eu prefiro pensar em homeostasia como de um modo menos clássico. Mais uma vez vamos por partes. O termo, homeostasia, deriva do grego "homeo - semelhante" e "stasis - situação", portanto, "homeostasia - situação semelhante".
A ideia que quero passar aqui é que a homeostasia compreende todos os processos e regulações necessários para a manutenção do organismo.
Chega de confusão e vamos voltar para o Processo "S". O que Borbély quer representar com esse processo é que além da regulação circadiana, o sono é regulado pelo acúmulo do seu débito. Como assim? Quanto mais acordado se fica, mais se acumula a necessidade de dormir, até chegar em um momento que o acúmulo fica insuportável e as criaturas dormem. Agora é hora de observar mais um esquema!

Figura 3. Processo de Regulação Homeostática do Sono. Em cinza uma curva indicando o acúmulo e dissipação da necessidade de dormir ao longo das 24h.
Algumas pessoas podem perguntar "é como acumular uma substância?" Eu diria que é quase isso, não é apenas uma substância porque o sono é um comportamento que envolve todo o corpo, mas se fosse para escolher uma, e apenas uma substância como indicadora do processo "S" eu e todo o referencial bibliográfico que tenho lido escolheria a adenosina. Mas isso é assunto para outro texto.
E quando é que dormimos? Finalmente, dormimos quando os dois processos apontarem para a mesma direção, ou seja, quando o processo "C" indicar que é momento de dormir e quando o processo "S" indicar que já acumulamos necessidade de sono suficiente para dormir! Volte para a figura 1!!!

Até lá eu ficarei escrevendo e sim, eu aceito críticas e sugestões! ;-p)

ResearchBlogging.org
Borbély AA (1982). A two process model of sleep regulation. Human neurobiology, 1 (3), 195-204 PMID: 7185792

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Cérebro Sonâmbulo.

O que acontece com neurônios corticais de animais que ficam privados de sono? Será que, individualmente, eles podem dormir enquanto outros neurônios, de outras áreas do córtex, permanecem acordados? Se isso acontece, há então neurônios sonâmbulos? Se existirem neurônios sonâmbulos seria possível existir um cérebro sonâmbulo com populações de neurônios que dormem enquanto outras estão ativas? E se isso acontecer, será que há prejuízo para o desempenho cognitivo? Ou melhor, seria essa uma possível explicação para a queda no desempenho cognitivo quando se está sonolento?

Foi com essas perguntas em mente que comecei a leitura do artigo Local Sleep in Awake Rats
desenvolvido pelo pesquisador Vladyslav V. Vyazovskiy e colegas do laboratório liderado por Giulio Tononi  publicado na revista Nature. Utilizando de um sistema de microeletrodos eles registraram tanto o potencial de campo local de uma população de neurônios como o que eles chamam de atividade multi-unitária (MUA - que registra o padrão de disparo de neurônios individuais), em momentos de vigília e sono espontâneos. O que eles queriam era saber se neurônios corticais de ratos podem exibir estados de inativação (Off) durante a vigília, semelhante aos que são observados em momentos de sono NREM quando são registradas as famosas ondas lentas.
Clique para descobrir a fonte!
Para minha surpresa, as conclusões desse trabalho respondem quase todas as minhas questões. Quando os animais foram privados de sono (SD4 - 4 horas de privação) houve uma mudança no potencial de campo local (LFP na figura 2) de alguns neurônios registrados, quer dizer, com a privação de sono começaram a surgir ondas lentas locais, coerentes com a ausência de disparo neuronais (note a falha na porção inferior do retângulo da figura 2c). Interessante notar que antes da privação de sono esse tipo de onda lenta não foi observado. Desse modo,  algumas perguntas foram respondidas, neurônios individuais e populações de neurônios ficam "Off" após privação de sono enquanto outros permanecem "online". Parece que existe sim neurônios sonâmbulos!

Figura 2. Períodos "Off" durante a vigília e o sono NREM. a) Registro de LFP do córtex frontal e  raster plot do MUA. b)Esquerda- força espectral para ondas theta/slow (2-6Hz), Direita-Força espectral para  atividades de ondas lentas (0.5-2Hz). c) Mudanças de estados On e Off. *Atenção para área destacada. Fonte: http://www.nature.com/nature/journal/v472/n7344/carousel/nature10009-f1.2.jpg

Como se não bastasse esse achado fantástico, tem mais! Não contentes em saber que neurônios podem ficar "Off" durante a vigília, os pesquisadores tentaram identificar se esses estados são globais ou locais. Para isso foram necessários mais alguns animais, agora com matrizes de microeletrodos posicionados em regiões diferentes do cérebro. Uma matriz registrava os padrões elétricos da porção mais frontal e outro de uma região mais parietal. Resultado? Quando os animais foram privados de sono por 4 horas foi possível observar a existência de surtos globais, mas também surtos locais de neurônios em estado "Off"! Mais interessante ainda foi notar que quanto maior a privação mais global se torna esse fenômeno.
Figura 3 - Períodos de sono local em ratos acordados. Fonte: http://www.nature.com/nature/journal/v472/n7344/carousel/nature10009-f2.2.jpg
Outra novidade interessante é que aparentemente o sono não é um evento tão sincronizado como se pensava. Note na figura 3 que durante o sono de ondas lentas existem atividade de ondas lentas globais, mas também existe ondas lentas locais. E durante o sono o que ocorre é que quanto mais se dorme mais local se torna o evento. Ou seja, há uma dissipação da atividade de ondas lentas no decorrer da noite.
Mais perguntas respondidas! E agora? Será que há uma correlação entre o número de neurônios em estado "Off" e o baixo desempenho cognitivo?
Segundo esse estudo, SIM! Animais privados de sono não apenas demonstraram pior desempenho em uma tarefa cognitiva como foi possível correlacionar os erros cometidos por esses animais com momentos "Off" de neurônios do córtex frontal! Sim, neurônios localizados na região cerebral associada ao planejamento!

Conclusão: Esses eventos "Off" que o autor chama de "sono localizado" podem representar um processo adaptativo, se pensarmos que em alguns cetáceos e em algumas aves um hemisfério pode dormir enquanto o outro permanece acordado para dar conta dos movimentos necessários para continuarem nadando ou voando. Seria mal adaptativa se interpretada como os estados comportamentais dissociados como o sonambulismo (verdadeiro) e algumas parassonias.
Questões em aberto: Será que esse mesmo padrão acontece em humanos? Poderia isso explicar o "cansaço" cognitivo após longos períodos de vigília?

Vou esperar para ver...

Esse foi mais um:


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Vyazovskiy VV, Olcese U, Hanlon EC, Nir Y, Cirelli C, & Tononi G (2011). Local sleep in awake rats. Nature, 472 (7344), 443-7 PMID: 21525926